Ótimo não aconteceu nada, ninguém me importunou, até porque eu estava com uma única bolsa.
Ia me esquecendo a quantidade de seguranças que existe nessa loja, é uma grandeza, são seguranças fardados e seguranças “araponga”. Chega a ser cômico ficar observando o balé da defesa das mercadorias. Voltando, Eu estava mergulhada na desorganização caótica que são as estantes de filmes. Não existe um método, um catálogo nada que possa ajudar, é humanamente impossível, achar o que se quer, e ninguém da loja sabe. Absorta, na busca insana, ouço o “boca de ferro” chamar uma pessoa. Chamar uma pessoa no alto-falante é algo normal dificilmente me chamaria à atenção. Só que o que eu ouvi foi algo, assim, bizarro, estapafúrdio, ridículo, quiçá criminoso. O “boca de ferro” fala: - associado William, por favor, comparecer... Em algum lugar, não me lembro onde e acho que o nome é William.
O bizarro é o “associado”, caramba eu não sabia que as Casas e Vídeos tinha tanto associado. Sim, porque perguntei a um rapaz e ele me informou que todos são tratados como associados. Achei maravilhoso. Aí perguntei ao rapaz, de novo, nota não é o William, aliás nem sei o nome do tal rapaz, quanto ele ganhava, esperava ouvir um p. salário, qual não foi à decepção. Bom, ele me respondeu: - eu recebo líquido trezentos e cinqüenta reais – R$ 350,00. Decepcionada, continuei a minha entrevista e perguntei: quantas horas você trabalha? Ele me responde: de 8 a 10 horas com meia hora de lanche por dia, trabalho de domingo a domingo, com quatro folgas ao mês, sendo que em datas especiais as folgas são canceladas.
Um verdadeiro trabalho escravo. Estamos no século XXI. Fiz uma última pergunta: o que você acha de trabalhar aqui? – Foi o que consegui arrumar, emprego está difícil. Notem o rapaz fala bem e estuda.
Realmente, caberia uma pesquisa jurídica para ver se isto está correto. Mas eu estou sem tempo e sem paciência de estudar o direito trabalhista, até porque ele sofreu tantas mudanças que eu teria que fazer outra faculdade para poder aprender tudo de novo. Só sei que chamar um vendedor de associado é uma forma de burlar a lei e não pagar aos empregados de acordo com sua verdadeira função. Chamando de associado a empresa descaracteriza a verdadeira função que é vendedor. Isso é um crime não no sentido jurídico, mas no sentido administrativo, trabalhista e humano. Eles recebem um percentual mínimo de participação nos lucros, aquela cascata que as empresas oferecem aos seus empregados, paternalistas e tão bonzinhos. Da até vontade de vomitar. Temos milhões de lutas de minorias como: os índios, os negros, os pardos, os amarelos, os gays, os deficientes porque não criar uma luta para defender os “associados” de empresas desumanas que existem a dar com pau nesse Brasil. Brasil que só quem tem razão é quem tem dinheiro ou rouba mais.
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