quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Crônica do dia-a-dia

Estava eu em uma loja, dessas de departamento, a pior de todas as lojas, a Casa e Vídeo do West Shopping. É, realmente, a meu ver a mais odiosa das lojas. Somos todos ladrões, assim eles consideram os seus clientes. Se você estiver com duas bolsas eles lacram com mil fitas uma delas. Tudo bem há quem goste. Meu marido adora essa loja, que, aliás, só vende produto de péssima qualidade. Eu evito entrar nessa loja. Mas nesse dia eu estava com muita paciência e precisa achar um filme, então arrisquei, entrei.

Ótimo não aconteceu nada, ninguém me importunou, até porque eu estava com uma única bolsa.

Ia me esquecendo a quantidade de seguranças que existe nessa loja, é uma grandeza, são seguranças fardados e seguranças “araponga”. Chega a ser cômico ficar observando o balé da defesa das mercadorias. Voltando, Eu estava mergulhada na desorganização caótica que são as estantes de filmes. Não existe um método, um catálogo nada que possa ajudar, é humanamente impossível, achar o que se quer, e ninguém da loja sabe. Absorta, na busca insana, ouço o “boca de ferro” chamar uma pessoa. Chamar uma pessoa no alto-falante é algo normal dificilmente me chamaria à atenção. Só que o que eu ouvi foi algo, assim, bizarro, estapafúrdio, ridículo, quiçá criminoso. O “boca de ferro” fala: - associado William, por favor, comparecer... Em algum lugar, não me lembro onde e acho que o nome é William.

O bizarro é o “associado”, caramba eu não sabia que as Casas e Vídeos tinha tanto associado. Sim, porque perguntei a um rapaz e ele me informou que todos são tratados como associados. Achei maravilhoso. Aí perguntei ao rapaz, de novo, nota não é o William, aliás nem sei o nome do tal rapaz, quanto ele ganhava, esperava ouvir um p. salário, qual não foi à decepção. Bom, ele me respondeu: - eu recebo líquido trezentos e cinqüenta reais – R$ 350,00. Decepcionada, continuei a minha entrevista e perguntei: quantas horas você trabalha? Ele me responde: de 8 a 10 horas com meia hora de lanche por dia, trabalho de domingo a domingo, com quatro folgas ao mês, sendo que em datas especiais as folgas são canceladas.

Um verdadeiro trabalho escravo. Estamos no século XXI. Fiz uma última pergunta: o que você acha de trabalhar aqui? – Foi o que consegui arrumar, emprego está difícil. Notem o rapaz fala bem e estuda.

Realmente, caberia uma pesquisa jurídica para ver se isto está correto. Mas eu estou sem tempo e sem paciência de estudar o direito trabalhista, até porque ele sofreu tantas mudanças que eu teria que fazer outra faculdade para poder aprender tudo de novo. Só sei que chamar um vendedor de associado é uma forma de burlar a lei e não pagar aos empregados de acordo com sua verdadeira função. Chamando de associado a empresa descaracteriza a verdadeira função que é vendedor. Isso é um crime não no sentido jurídico, mas no sentido administrativo, trabalhista e humano. Eles recebem um percentual mínimo de participação nos lucros, aquela cascata que as empresas oferecem aos seus empregados, paternalistas e tão bonzinhos. Da até vontade de vomitar. Temos milhões de lutas de minorias como: os índios, os negros, os pardos, os amarelos, os gays, os deficientes porque não criar uma luta para defender os “associados” de empresas desumanas que existem a dar com pau nesse Brasil. Brasil que só quem tem razão é quem tem dinheiro ou rouba mais.

De: Eliana Rocha

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